:::: Opinião: Como abordar o medo e o abandono com seu filho ::::
O jovem Lindemberg reagiu violentamente ao ser deixado pela namorada.
Saiba como ensinar seu filho a lidar com o temor e com a solidão.
Ana Cássia Maturano
Os acontecimentos da última semana deixaram todos estarrecidos. Fomos surpreendidos pelo seqüestro da jovem Eloá, pelo seu ex-namorado Lindemberg Alves. Uma hipótese é a de que o rapaz não suportou ser deixado pela garota. A intensa frustração cegou-o, levando-o a assassiná-la.
Isso nos traz a reflexão sobre a dor que todos temos diante do abandono. Esse desespero, de maneira nenhuma, pode justificar o ato extremo de Lindemberg.
A idéia de estarmos sós no mundo não é nada agradável. Tememos perder as pessoas que amamos e lutamos para mantê-las ao nosso lado. Quanto maior nossa dependência do outro, maior o medo. A forma pela qual lidamos com isso internamente vai depender de nossa maturidade e vivência.
Quanto mais jovem maior o temor. Para uma criança, por exemplo, imaginar-se só é muito assustador, pois ela sabe que é dependente do adulto. Teme que os pais vão embora, não vislumbrando que poderão existir outras pessoas para amá-la e para cuidar dela. Talvez isso tenha acontecido com Lindemberg.
O medo é tão intenso em algumas crianças, que elas chegam ao ponto de não conseguirem ficar na escola: receiam que os pais não voltem para buscá-las, mesmo que isso nunca tenha ocorrido. Os professores sabem muito bem o que estou dizendo.
Há situações na vida que potencializam ou concretizam esse temor. É o caso do nascimento de um irmão – situação na qual os pequenos sentem a ameaça de serem “trocados” pelo novo integrante da família. Outro exemplo é a ocorrência da perda real de alguém especial, como a morte dos avós ou mesmo a mudança de cidade. A separação dos pais também pode representar perda, quando as crianças ficam impossibilitadas de conviver com os dois.
Ameaças de abandono
Perder pessoas queridas e das mais variadas formas faz parte da vida. E os exemplos citados referem-se a situações que muitas vezes não controlamos. No entanto é comum as crianças estarem envolvidas em circunstâncias em que há pequenas e constantes ameaças de abandono.
Um caso típico é quando o adulto diz: “Se você não ficar quieto, vou embora e te deixo aqui sozinho”. Quem não presenciou cenas assim? Basta observarmos a expressão da criança para constatar a sensação de medo em seu olhar.
A criança acredita mesmo que o adulto irá embora e, por isso, vai acatar a ordem. Ao perceber que a estratégia surte o efeito esperado, os adultos recorrem ao seu uso como elemento controlador do comportamento infantil. Só que isso terá como base o medo de ser deixado, o que não contribui em nada para o desenvolvimento saudável.
Atitudes assim ensinam os filhos que, diante de um possível abandono, devem fazer qualquer coisa para não perder o outro. E muitos fazem qualquer coisa mesmo, inclusive o que os desagrada – há grande chance de essas pessoas se tornarem adultos submissos.
Lindemberg, por sua vez, não suportando não ser mais amado, matou o objeto de seu “amor”. Em sua história o abandono não foi só da namorada. O rapaz foi criado sem o pai desde pequeno e pode ter revivido com Eloá o sentimento da infância de ser deixado.
Como temos visto com freqüência, as emoções humanas trilham caminhos tortuosos. Vale a pena fazer um “investimento” para que nossos filhos consigam lidar com suas emoções de maneira tranqüila, sem impor medos desnecessários. E, acima de tudo, é fundamental ensinar as crianças a se amarem e a se valorizarem.
Ana Cássia Maturano é psicóloga e psicopedagoga
Fonte: G1 |