Os tempos que o Brasil vive têm desfechado duros golpes sobre a virtude da esperança, tão discreta quanto difícil de viver. As evidências teimam em realizar diante dos olhos intumescidos e descrentes do povo brasileiro macabra dança que vai derrubando uma a uma suas ilusões e mais arraigadas convicções. E o saldo que levamos sobre os ombros é uma insuportável carga de decepções amargamente mastigadas e engolidas, de promessas desavergonhadamente não cumpridas, de desenganos assassinos que matam sem misericórdia toda a nossa capacidade de ainda confiar e acreditar.
Na esfera pública e na privada, no nível macro e no micro a ordem parece ter se desordenado de uma vez por todas. Os marginais fazem a lei e os que deviam salvaguardar a ética e o bem comum são os primeiros em pisoteá-los. Os filhos maquinam e executam o assassinato dos próprios pais. As mães atiram os bebês nascidos de seu ventre na lata do lixo ou nas águas da lagoa ao encontro da morte. Os políticos usam o poder recebido pelo voto para aumentar os próprios salários e fazer conluios milionários que os enriqueçam à custa do sangue e suor de milhões de honrados trabalhadores. Os anciãos são desrespeitados, as crianças têm sua inocência conspurcada desde a mais tenra idade, os jovens são aliciados e corrompidos pelo tráfico criminoso e degradante. Mulheres são agredidas e espancadas, homens de bem perdem a dignidade por não conseguir ganhar seu sustento por um trabalho digno e honesto.
Governantes mentem desavergonhadamente ao povo que os elegeu e manejam cartas antecipadamente marcadas transformando o cenário da nação em um espetáculo circense de duvidoso gosto. Golpes são articulados na calada da noite e descobertos à luz do dia, enquanto seus responsáveis tratam de escapar das tentativas da justiça de desmascará-los e restabelecer a verdade. Propinas em dinheiro, em benefícios escusos ou em prolíficos guarda-roupas compram votos e benesses as mais diversas.
A economia oscila e balouça frágil e ameaçada sobre abismos de incerteza e insegurança. O cotidiano se torna mais duro e cruel, o trabalho escasseia, a tranqüilidade se distancia, as instituições se desmantelam. A saúde se deteriora, a educação se degrada. Poluem-se rios e derrubam-se árvores; matam-se peixes e exterminam-se espécies, ameaçando a sobrevivência do ecossistema e, em conseqüência, de todo o universo, incluída a humanidade. A Amazônia, pulmão do mundo, encontra-se sob séria ameaça e o Brasil não parece saber o que fazer para evitar a catástrofe.
E no entanto mais uma vez amanhecerá. E a aurora vencerá a noite de trevas que pareciam não ter mais fim. Mais uma vez o brilho da luz prevalecerá sobre o lusco fusco repelente e obnubilante que não permitia distinguir contornos e limites e amalgamava tudo e todos em indistinta confusão. Mais uma vez o Espírito dará movimento e agilidade à argila que sem ele se converteria em lama desfeita e deteriorada, escorrendo em perpétuo declive.
No primeiro dia da semana novamente iremos, homens e mulheres habitantes desta Terra de Santa Cruz, atemorizados e traumatizados por tanta morte e tanta dor , em busca do cadáver daquilo que foram nossos sonhos e utopias, nossos anseios e mais caros desejos. Novamente estaremos convencidos de que tudo que nos resta é sepultar nossas esperanças. E de novo, e uma vez mais, nossa desolação será defraudada pelo pasmo de encontrar a pedra afastada, o túmulo aberto; e pela alegria cheia de espanto de ouvir o anúncio embriagador: “Por que buscar entre os mortos aquele que está vivo?“
Mais uma vez a passagem se terá dado, da morte para a vida. E a Páscoa terá sido celebrada. E aqueles que crêem terão dito Amém e cantado Aleluia! E os que não crêem terão continuado a viver o milagre original e irrepetível que foi sonhado para eles e para ninguém mais. Mais uma vez o fogo terá acendido o círio que acenderá as velas uma a uma iluminando a noite e os corações e desatando as línguas para o canto de louvor que proclama a vida que jamais tem fim.
A celebração da Páscoa terá acontecido, uma vez mais, para lembrar-nos que nossas vidas são sustentadas pelo tênue e sutil fio da esperança. E hoje mais que nunca, descobriremos dentro de nós mesmos que essa virtude que parecia haver secado e morrido por falta de condições de existência em nosso país ali está, intacta, inteira, dando-nos leve e discretamente o alento sem o qual não poderíamos continuar respirando e vivendo.
Mais uma vez, será manhã de Páscoa. Mais uma vez a esperança que o talento do poeta chamou de “equilibrista” realizará seus malabarismos na corda bamba da vida sofrida do povo brasileiro. E todos seremos chamados a sair de nosso cego desespero e abrir os olhos para ver a poderosa ação do Deus da vida que uma vez mais nos afirma, com a Ressurreição de Jesus Cristo, que vale a pena esperar.
Por Maria Clara Lucchetti Bingemer